segunda-feira, 2 de março de 2009

Abundância/desperdício vs reverso da medalha

Este Domingo tive de fazer uma tarefa que é imperativa fazer cá em casa, uma vez por ano: descongelar a arca frigorífica!

Nunca sou eu a escolher de livre vontade a data, é sempre o dito electrodoméstico que dita o momento. Desta vez quis armar-me em teimosa e tentei ao máximo adiar esta tarefa, pela qual confesso não nutrir especial estima.
Primeiro uma das três gavetas começou por ficar imóvel e colada pelo gelo: a gaveta de cima onde guardo os croquetes, rissóis, pastéis de bacalhau e gelados ... Menos mal foi pretexto para não comer coisas altamente calóricas por algumas semanas. Contudo, a camada de gelo continuou a crescer até já não dar para fechar bem sequer a porta... Sem alternativa lá tive mesmo de me render ás evidências!

Como reza o ditado, "o que tem de ser tem muita força", lá despachei o miúdo para os avós, arregacei as mangas, pus um panelão de água a ferver (para ajudar a derreter o gelo com o vapor), pus turcos no fundo para evitar o dilúvio pela cozinha fora e fui esperando pelo degelo.
Enquanto esperava fui tentando arrumar os alimentos nas gavetas e aí começa a história que aqui quero contar... É uma autêntica vergonha, e em tempos de crise como os que correm, é quase um crime o que fiz. Tive de deitar mais de metade das coisas para o lixo pois ou estavam já passadíssimas da validade (algumas tinham validade ainda de 2007!!!) ou estavam completamente queimadas pelo gelo que se tinha formado no interior da embalagem.

Isto fez-me tomar algumas decisões:
- Não aceitar as doses industriais que muitas vezes a minha mãe me quer dar porque depois invariavelmente a maioria é para estragar e assim mais valia lá ficar por casa dela que sempre são mais bocas a comer;
- Acondicionar as coisas em sacos hermeticamente fechados ... item a pôr sem falta na próxima lista de compras;
- Gerir melhor a disposição dos alimentos por prazo de validade e garantir vistorias mais sistemáticas.

Em casa dos meus pais raramente haviam desperdícios, aliás fruto desta educação, ainda hoje tenho por costume deixar o prato sem quaisquer restos no final de uma refeição pelo que esta estragação foi para mim um drama.


Por outro lado, resultado da minha profissão e também de vivências da minha vida pessoal, tenho conhecimento de muitas empresas de diversos ramos que sistematicamente realizam abates de inventário de coisas que estão em perfeitas condições só com pequenos "handicaps" que não comprometem de forma alguma o bom estado ou segurança do produto... Prefiro não me comprometer citando exemplos claros mas só para dar ideia do que digo: só por se ter mudado um logótipo ou criado uma embalagem com novas cores, há stocks dentro da validade que vão em quantidades massivas para destruição; só por alguém ter descolado um pack de 4 e só levado uma embalgem (ainda que tendo pago também os restantes sem se aperceber), os outros 3 vão para quebra e entenda-se destruição; só porque durante o transporte ou armazenamento algumas embalagens ficaram ligeiramente amachucadas ainda que nada tenha acontecido ao contéudo, vai também para o lixo...

Assisto a isto todos os meses e acreditem há coisas que corta o coração até por saber que iam fazer bebés e crianças tão felizes. Por tudo isto me sinto tão revoltada com estas normas da ASAE ou com politiquices de multinacionais que preferem deitar para o caixote ao invés de ajudar tanta gente que passa necessidades.

E depois cruzo-me frequentemente com peditórios à porta dos hipermercados a pedir ajuda à calejada e necessitada classe média, quando era tão simples e massivamente mais eficaz pedir ás empresas que colaborassem com a responsabilidade social que tanto apregoam mas não cumprem na prática...

Desculpem este testamento mas ao descongelar a arca enquanto partia a colher de pau ao tentar quebrar o gelo, descarreguei esta revolta e lembrei-me daqui a publicar...

2 comentários:

Gaivota disse...

Gostei muito deste teu post, Ana.

Estás carregada de razão.

Beijos

Sofia Quintela disse...

pois, realmente...