É suposto que um blog de bebé/criança seja alegre, cheio de cor e com posts repletos de episódios alegres e bonitos. Por isso hesitei bem antes de publicar este post mas fiz-o porque pensando bem, e até que o Miguelito tenha idade para escrever e ir continuando a engrossar este blog, este acaba também por ser um diário meu com a minha perspectiva de ver o mundo e as coisas que nos acontecem. A vida nem sempre é cor-de-rosa e não podemos esconder das crianças que há um lado cinzento mas devemos com muito amor e bom senso prepará-las para aprenderem a lidar com isso e dar-lhes armas para saberem superar a dor da perda.
Ontem morreu o meu Tio João e hoje foi o seu enterro. Lamentavelmente não chegou sequer a conhecer o seu único sobrinho-neto e na hora do adeus isso ainda ajudou a que me sentisse mais triste.
Este meu tio sempre foi um solibatário por excelência, com um feitio muito difícil e muito pouco dado a simpatias e palavras doces. É daqueles casos em que não sei se foi a vida que o fez ser assim uma pessoa só e amarga ou se foi a sua maneira de ser a responsável pela vida que teve. Em qualquer caso e ainda que com as incompatibilidades e divergências que nos afastavam, este era o meu único tio paterno e guardo boas recordações dele na minha infância.
Hoje na hora do funeral enquanto me despedia e me relembrava dele viram-me algumas memórias de menina e são essas que vou procurar guardar para sempre dele: a tartaruga a corda que me deu e que era o meu brinquedo predilecto, a minha primeira (e única) bicicleta, as fotografias tolas que tirava ao céu e aos aviões e que por sua vez tiravam o meu pai do sério pois serviam apenas para desperdiçar rolo, as suas visitas sempre tão inesperadas quanto espaçadas entre si, as idas ao café e os chocolates que lá me comprava, as histórias dos tempos em que ele e o meu pai eram pequeninos e viviam com as dificuldades típicas de um país marcado pela ruralidade e regime ditaturial com a agravante ainda de serem órfãos de mãe.
Tio que tenhas enfim o eterno descanso e paz.
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